Crianças multiculturais

Meu texto sobre Crianças multiculturais no blog Brasileiras pelo Mundo

foto:istock


Criar filhos pelo mundo não é uma tarefa fácil, recebo diariamente no Maria Aqui e Ali muitas perguntas sobre essa experiência e resolvi dividi-las com vocês.
No meu caso a adaptação foi desde a gravidez: tipo de consulta, ultrassonografias, o parto, o pós parto, licença maternidade. Como a Lorrane, já comentou aqui, a licença maternidade nos Estados Unidos não está nem perto de ser satisfatória, então decidi passar praticamente o primeiro ano inteiro da Maria Antonia com ela.
Um pouco antes do primeiro ano resolvi matriculá-la em uma creche, por alguns dias da semana, para melhorar a sua socialização e me permitir também voltar ao mercado de trabalho.
E então começava a minha imersão no mundo das crianças de terceira cultura.
As primeiras palavras da Maria Antonia foram em inglês, algumas facilmente identificadas, outras nem tanto. Apesar de ser fluente em inglês, não fui alfabetizada na língua e se o "bebenês" já é difícil na nossa língua mãe imaginem em outro idioma. Lembro de uma situação constrangedora, pelo menos para mim, que passei ainda com ela pequena. No corredor do mercado, ela apontava para algo, pedia, chorava e eu simplesmente não sabia o que era, até que uma senhora se aproximou e perguntou se eu estava entendo o que minha filha falava e eu disse não, ela então se comunicou facilmente com a Maria e "traduziu"o pedido.
Ali eu vislumbrei o futuro que me aguardava. Cheguei em casa e comecei a pesquisar a respeito de bilinguismo, crianças expatriadas e foi quando me deparei com esse termo: TCK-Third Culture Kid,que numa tradução literal são as crianças de terceira cultura , mas até aquele momento essa realidade ainda parecia distante, mas aos poucos foi se aproximando: as brincadeiras, as canções infantis, fui aos poucos descobrindo o mundo com a Maria Antonia. Sempre sonhei em ser chamada de mamãe, mas virei  "mommy"
O português sempre foi a língua em casa, mas até os 4 anos, a Maria Antonia só falava em português pouquíssimas palavras, mas compreendia perfeitamente.
Maria tinha muito mais contato e influência da cultura americana do que da brasileira...
Como se não bastasse recebemos a notícia da mudança para Abu Dhabi nos Emirados Árabes Unidos, e o que esperar?
Mais um desafio se apresentava a mim naquele momento e foi exatamente nesse período que ficou claro pra mim o que era uma TCK.
A turma da Maria Antonia ainda no jardim era  de 22 alunos, 14 nacionalidades diferentes, a escola em si, no seu corpo de alunos, abraçava 75 nacionalidades.
O lema da escola era: tenha uma mente aberta, respeite as diferenças, liberte-se de pré conceitos, vocês são cidadãos do mundo e são mesmo.
E eu percebia isso de diferentes formas, algumas me preocupavam enquanto muitos achavam interessante. Perguntas simples  como: "de onde você é? ", na verdade se tornam complexas para crianças que nasceram ali, cresceram aqui,  e os pais são de lá.... Quando as crianças conversavam entre elas perguntavam: "quantos aviões são até a sua casa?" Quando perguntava a Maria Antonia: qual seu lugar preferido em Abu Dhabi, ela respondia: o aeroporto!!!
Maria Antonia an apresentação: de onde sou? Foto arqueivo pessoal

Geralmente famílias expatriadas também tem como hobby viajar e explorar novos lugares, talvez para compensar a distância, a saudade ou aproveitar as redondezas daquele país onde moram , pois, de uma hora pra outra, a mudança pode acontecer. Então não é difícil ver essas crianças falarem que gostam da comida de um país específico, que essa companhia área é melhor que outra, que esse hotel é mais confortável. Pode até parecer esnobe no começo, mas na verdade é a realidade em que elas são expostas, é a vida que estão acostumadas a levar e, com isso, têm sempre um olhar crítico sobre as mais diversas situações.
Estamos de volta a Houston e a escolha da escola não foi fácil, primeiro porque podemos mudar a qualquer momento, então teria que ser uma escola internacional que estivesse acostumada a essa mobilidade. Segundo, não queríamos que a Maria Antonia tivesse dificuldade de se sentir aceita, então optamos por uma escola com perfil de crianças expatriadas onde essa realidade de ser dali e daqui é usual.
Dentre as muitas vantagens dessas crianças eu cito a maturidade cultural, a flexibilidade, adaptabilidade, independência e o poder de observação.
Um exemplo, quando vocês estiverem lendo esse texto, a minha  pequena, grande menina, terá embarcado sozinha no alto dos seus oito anos para passar férias no Brasil, eu temerosa, ela feliz e animada e me consola: "mamãe eu tenho amiga que viaja sozinha desde os sete". Quando conversei na escola para saber se ela emocionalmente teria condições de enfrentar esse desafio, todos foram categóricos em dizer: não se preocupe. Fora do ambiente"protegido" dos expatriados as pessoas se surpreendem , mas o aeroporto, avião é o que ela mais conhece e se sente confortável. Afinal já estamos no 3° país.
Até agora mencionei as vantagens, mas e as consequências dessas mudanças e vida nômade?
Muito se estuda e o que mais já foi relatado:
  • falta do senso de pertencimento: pertenço a vários lugares e a nenhum;
  • dificuldade de se aprofundar nas relações, pois sabem que a qualquer momento podem mudar, acabam tendo dificuldade de criar laços e raízes como uma forma de defesa;
  • Impotência, não ter controle sobre a sua vida e decisões;
  • problemas de identidade cultural.
Sempre tive muitas dúvidas, como mãe, em como agir e sempre busco orientação, pois a cada mudança, novas questões aparecem.
Algumas dicas que funcionam muito bem na nossa dinâmica familiar:
  • amenizar o sofrimento da despedida com argumentos de ser uma criança privilegiada por estar vivendo aquilo, pela vida dinâmica pode parecer o certo, mas na verdade, tais argumentos não são aconselháveis. É importante deixar a criança demonstrar a insatisfação, a raiva e aflição e se mostrar compreensivo e externar também as suas dificuldades, engajar a criança no projeto de vencer juntos a tristeza da partida;
  • permitir que a criança, em alguma situação, crie as regras, tenha o controle da situação. Esse empoderamento suaviza a sensação de impotência;
  • crie as tradições da sua família;
  • comprometa-se a manter as relações de amizade criadas no país, seja por conversas via internet ou encontros de tempos em tempos;
  • demonstre sempre uma atitude positiva, é mais fácil educar com exemplos do que com palavras.
Você vive essa realidade? Ainda tem dúvidas de como lidar com essa situação? Estamos no mesmo barco, deixe seu comentário e trocamos mais figurinhas.
Até o mês que vem.  See you soon

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